terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Parado pela polícia russa!

Ok ok, como diria aquele apresentador de programas de fofocas de celebridades. Anteontem fui parado pela polícia aqui na Rússia. Não sei se é interessante para vocês, mas vou contar assim mesmo.

Viatura que nos levou à delegacia. Horrível
Meu irmão estava me visitando aqui na Rússia (foi embora ontem de manhã) e, como domingo era seu último dia por aqui, decidimos ir ao jogo de hóquei do time da cidade, que se chama Khimik de Voskresensk, contra o Sputnik de Nijny Tanguil, que fica nos Montes Urais. O Khimik perdeu o jogo por 2-4 (o terceiro jogo seguido que fomos assistir e a terceira derrota consecutiva). Saímos do palácio de gelo - assim se chamam os ginásios onde se disputam esses esportes sobre o gelo, como hóquei e patinação arrística - um pouco depois das 19:00 e, como o ponto de ônibus estava muito cheio, decidimos ir andando para casa. Iríamos caminhar por uns 30 ou 40 minutos, mas quando se está acompanhado é mais fácil. Atravessamos a rua em frente ao palácio de gelo e estávamos andando na calçada e conversando numa boa quando passamos por três policias. Continuamos andando normal quando ouvi alguém chamando de trás. Quando virei para ver o que era, um dos policiais fez um sinal para que parássemos. Nesse momento pensei "que ótimo, ser parado pela polícia justo agora". 

Você verá algum desses pelas ruas da Rússia
Primeiro eles encostaram e perguntaram se nós falávamos russo. Meu irmão não fala nada e eu sei um pouco apenas, não o bastante para conversar com a polícia, então disse que não, não falávamos. Minha esposa (que não estava muito disposta na hora do jogo e não foi conosco) disse que eu não deveria ter dito isso, mas ter dito que falava um pouco. Pediram nossos passaportes, começaram a olhar e um deles perguntou em inglês de onde éramos. Dissemos que do Brasil e eles ficaram olhando e falando entre eles. Ficaram insistindo e eu apenas dizia que trabalhava como professor em Tomsk e estava de férias em Voskresensk, mas eles não faziam uma cara muito legal. Telefonei para a minha esposa e expliquei o que acontecia. Ela começou a falar com um deles e o policial disse que, como não éramos cidadãos russos teriam que nos levar para a delegacia para tirarmos umas fotos e sermos liberados, nada de muito complicado. Eles chamaram una viatura e nos falaram "car", "go". Pensei em dizer que não iria, mas seria pior na verdade. Tentei mais uma vez explicar que não fazíamos nada, só estávamos no jogo e voltando para casa, dessa vez em inglês, mas não adiantou. Entramos na viatura com outros três policiais (não os mesmos primeiros três) e rumamos para a delegacia.

Fique esperto com eles
No caminho (que foi curto, coisa de 5 minutos), fiquei pensando se eles iriam pedir algum dinheiro (os policiais não são conhecidos aqui pela sua grande honestidade), ou se iriam querer fazer algo pior. Já ouvi algumas histórias sobre a polícia daqui, junto com tudo que vi em museus dos tempos soviéticos como o da NKVD em Tomsk, que não eram nada boas. Gente que era levada para a delegacia apenas para algumas formalidades e não voltava mais e coisas assim. Minha esposa depois disse que ficou muito assustada quando disseram que nos levariam para a delegacia, especialmente por não ter feito nada e correu para lá também. Ela conhece essas histórias de pessoas levadas pela polícia sem motivo algum bem melhor que eu, afinal, ela é russa. E isso de ir com a polícia e não voltar mais não é coisa de antigamente não. Acontece ainda hoje.

Brasão da polícia russa
Chegando à delegacia fomos levados a uma sala que só tinha duas mesas, duas cadeiras e um banco. Disseram-nos para sentar no banco e aguardar. Meu irmão estava calmo por fora, mas disse que estava receoso de nos segurarem lá por horas. Chequei meu celular, sem sinal. Depois de uns 10 minutos, apareceu um policial sorrindo, querendo conversar, mas eu disse que meu irmão não falava russo e eu entendia pouco. Ele disse um monte de coisas. Até entendi muito do que ele disse, mas preferi não entabular uma conversa. Imagino que como no Brasil, os policiais do mundo inteiro começam a conversar de forma amistosa para tentar te pegar em alguma contradição ou algo assim. Para evitar que encontrassem algo ue não exisitia, eu só dizia que não entendia o que ele falava. Até que ele se cansou e foi embora. Uns cinco minutos depois apareceu um outro policial, trazendo um cara que parecia um imigrante de algum país da Ásia Central, mandou-o sentar no banco também e começou a escrever. Mais ou menos uns dois minutos depois apareceram outros dois policiais, um deles com uma câmera e perguntou quem seria fotografado primeiro. Eu fui e ele tirou fotos de frente e perfil. Depois foi a vez do meu irmão passar pelo mesmo procedimento. Eles saíram e depois de uns cinco minutos o fotógrafo retornou com nossos passaportes (que desde que os apresentamos pela primera vez, não tínhamos visto mais, outro grande erro meu) e nos disse para ir embora. Pegamo-os e fomos embora. Uns dois minutos depois que saímos, minha esposa chegou à delegacia. Telefonei para ela e nos encontramos ali perto mesmo. Ela estava bastante assustada, mas no final tudo ficou bem e agora estou até rindo lembrando de tudo isso. Chegamos em casa às 20:30, mais ou menos.

O infame jogo entre Khimik e Sputnik
Bom, acho que a dica que posso deixar para vocês desse entreveiro que tive sempre manter a calma e nunca dizer que não fala nenhuma palavra de russo, isso pode tornar as coisas mais difíceis. Diga que fala pouco (не много - nye mnoga). Responda o que você entender do que eles dizem (não adianta falar inglês ou qualquer outra língua que não seja russo). Se não tiver certeza que entendeu tudo, diga apenas "nye panimayu (не понимаю), que significa "não entendo". E, depois de passar seu passaporte a eles, pegue seu telefone e chame o primeiro russo que vier a sua cabeça. Passe o telefone para que a pessoa fale com os polícias se necessário. Peça para seu contato perguntar para onde estão te levando e diga para o contato ir imediatamente para lá. Se você não tiver um telefone à mão, pode pedir para eles te fornecerem um, a lei os manda fazer isso. Se você não conhece ninguém na Rússia... nem sei o que fazer então. Ligar para a embaixada provavelmente não resolverá seu problema. Não se esqueça de pedir seu passaporte de volta com firmeza, não os deixe ficar con seus documentos de jeito nenhum (vacilei nisso). Se seus documentos estiverem legais (como era nosso caso), não há muito com que se preocupar. Se não estiverem... bom, você precisará de sorte. Ah, e não assine nada que você não tenha completa certeza do que seja, em nenhuma hipótese. Não nos pediram para assinar nada, mas se pedissem, recusaria.

Acho que é isso amigos. Se quiserem perguntar algo sobre a história (só não vou poder fornecer detalhes precisos como falas, horários e coisas assim), fique à vontade. Até a próxima!

11 comentários:

  1. Privet, meu amigo!

    Pensei que era só aqui no Brasil que a polícia dava "geral" sem motivo algum, só por não ir com a cara do sujeito...
    Isso aconteceu comigo em duas ocasiões. Uma delas enquanto eu ainda servia no "20". Quase deu pancadaria. A segunda quando estava andando com meu finado irmão, também. Mas estas são outras histórias...
    Se me permite, deixa eu te perguntar:
    O Dmitryi, que é marido da Natalya Filina, é policial em Voskresensk. Ele não pôde ajudar ou estava de folga neste dia? Ou você não o conhece a ponto de poder pedir-lhe uma mãozinha nesse aperto(ou isso nem lhe ocorreu na hora?)?
    A polícia russa implica muito com estrangeiros? É preconceito ou procedimento?

    Quanto a ser interessante para nós, tenho a dizer o seguinte:
    É, e muuuuito! E por várias razões. A primeira delas tem a ver com o título do blog. Foi de fato uma aventura e tanto! E foi instrutivo também, afinal o seu espírito de professor se manifestou por completo no post, ao nos ensinar o que fazer e o que não fazer num momento como esse de acordo com a sua própria experiência. E(se me perdoa) foi divertido, acabei até rindo, porque me identifiquei de imediato. Me trouxe lembranças de algumas "lambanças"...rs

    Bom parceiro, por hora é isso.

    Grande abraço e vai pela sombra. Poka!

    P.S -Порядок прибыл? Я беспокоюсь. Это почти 30 дней ...Пожалуйста, подтвердите, друг!

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    1. Olá caro Kleber!

      Pois é, eu já fui parado no Brasil, mas só porque passava por acaso em algum lugar onde estava acontecendo algo de errado.

      Não, ele não pôde ajudar porque estava em Moscou e incomunicável de algum modo. E sim, a polícia aqui implica com estrangeiros. Especialmente os que têm cara de turcos, oriundos da Ásia Central (disseram ser nosso caso) e creio que negros também. Se você tem aparência europeia, podem apenas olhar seu passaporte, pedir-te desculpas e dizer para ir. É uma pequena porcentagem de procedimento e uma maior de preconceito, eu acho. Nada disso de ir para a delegacia e tirar fotos por nada. Imagine, eu rio dessa história agora também.

      Muito obrigado mais uma vez por sempre acompanhar as postagens daqui e um grande abraço.

      P.S. Pois é, nem notícia disso ainda... uma pena...


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    2. Não há problemas de preconceito por parte da polícia russa, o que há é problemas de imigração ilegal.
      Já fui parado por policiais russos e muito bem tratado, num deles um policial da cavalaria até apertou a minha mão ao perceber que eu falava russo. É mais fácil um policial achar que minto quando digo que sou do Brasil do que qualquer outra coisa. Em Kazan foi a mesma coisa, tratamento bem diferente da polícia do Brasil. Em Minas fui abordado por quase 10 policiais apenas por tirar fotos em frente a um banco, passei por revista e encheção de saco.
      Na Rússia os policiais são extremamente profissionais, não vi policial querendo bancar pit bull durante abordagens e coisa parecida. No metrô eles sempre dão informações na maior boa vontade, inclusive um sargento ficou famoso por salvar uma mulher que caiu nos trilhos.

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    3. Legal, que bom para você. Bom, vivendo aqui há um ano e meio já conheço umas estórias bem estranhas sobre policiais, vindas de diversas fontes. A polícia vista pelos inocentes olhos do turista brasileiro é realmente muito eficiente, prestativa e com muita vontade de ajudar.

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  2. Luciano, você acha que as atuais tensões entre Turquia e Rússia tiveram alguma coisa a ver com essa abordagem policial que fizeram a você, ou seja, eles implicaram porque acharam que você fosse turco? ou teria sido mesmo porque "eles não foram com sua cara"?

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    1. Imagino que em parte sim Christian. Mais de uma pessoa já me disse auqi na Rússia que eu tenho cara de turco e tals. Além de falar uma língua estranha. Somado às tensões entre os países, eu acho que me pararam por também isso sim.

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  3. Respostas
    1. Olá. Para começar, existe um post com algo relacionado a isso. No próximo comentário fora do lugar, será ignorado.
      Para usar o teclado russo, é necessário instalar o pacote de idiomas do Windows. ALguns idiomas já vêm pré-instalados e russo é um deles.

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    2. Eita Luciano infelizmente nao deu sorte. Tem policiais muito educado e tem uns quw so falta te chamar de bandidoa mais nao generalizo pois este trabalho e altamente estressante rss.
      Muito interessante estas informaçoes. Pretendo ir na Russia e conhecer um pouco.
      Fora este incidente tiveste outro parecido e a segurança como e ai?

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    3. Olá Tony!
      Sim, realmente, tem todo tipo de pessoa em qualquer trabalho, concordo cintigo.
      Não, nunca tive mais problemas com polícia nem nada. Como eles disseram, foi apenas uma rotina.

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    4. Ah, e a segurança aqui é bastante boa. Claro que às vezes acontecem crimes (alguns até bem violentos), mas não é possível comparar com o Brasil por exemplo

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